sábado, 17 de abril de 2010

Anselm Grün no Brasil


Pois é, pessoal.

A convite de uma amiga minha, tive a graça e a oportunidade de estar em uma palestra do renomado mestre e teólogo em espiritualidade Anselm Grün nesta última segunda feira.

O evento ocorreu na Paróquia de São Judas Tadeu, em São Paulo (perto do metrô São Judas), e o auditório estava lotado.

O referido teólogo, que é monge alemão, logo que entrou percorreu toda a nave da paróquia, cumprimentando o maior número possível de pessoas. Após, proferiu uma palestra sob o tema "Espiritualidade Contemporânea" e depois de um rápido intervalo, resondeu à várias perguntas (tudo, traduzido do alemão para o português).

Vou postar um resumo da palestra (resumo mesmo - paróquias muito grandes costumam dar eco, e as vezes, não dava para entender o tradutor). Vai no estilo "anotador biônico...rsrsr).

Grun começou falando sobre o significado do termo espiritualidade, sustentando, a grosso modo, que a espiritualidade é viver conforme o Espírito de Deus. Que é um desvio muito grande na espiritualidade a idéia de perfeição absoluta e ausência de erros. Explicou que o Espírito, em nós, é uma fonte inesgotável de vida, que tem pelo menos cinco características: esta fonte refresca; é saudável; fortifica; é fértil e purifica. Explicou, com rápidas palavras, cada uma destas características.

Após, também falou das virtudes espirituais como fontes de espiritualidade, notadamente as chamadas virtudes teologais (fé, esperança e amor).

A fé, entre outras definições, é saber-se carregado por Deus. Que tudo o quanto precismos decidir deve ser colocado com fé diante de Deus. É uma confiança de que sou abençoado e de que sou também uma benção. Viver pela fé também me ensina a ter fé nas pessoas, esperando delas o que de melhor podem dar para Deus e para o próximo. Ver em cada pessoa a imagem do Deus vivo. Citou um teólogo judeu que diz que não há linguagem sem fé, nem fé sem linguagem. A linguagem da fé é uma linguagem que aquece o coração de quem fala e de quem ouve.

Uma imagem muito viva do que ele disse é que na relação de confiança é como se construíssemos uma casa em que o outro pode se sentir a vontade e se abrir. A relação como um lugar de conforto, de transparência. A palavra permeada pela fé constrói uma casa.

A outra virtude teologal é a esperança (que é diferente de expectativa). Discorreu sobre a esperança em diversos aspectos da vida. Não ter esperança é o inferno (Dante). A esperança valoriza o nosso fazer; tudo o que faz sentido na vida deve ser feito com esperança.

A terceira virtude teologal, que é fonte de espiritualidade, é o amor, a caridade, que não é moralizante, mas sim uma fonte de vida, de confiança. Falou sobre o aspecto esvaziante e preenchedor do amor, que confia mesmo quando sabe que não dará certo. Que é um desafio nos tornarmos todo amor, assim como Deus é amor.

Depois, Grün falou sobre os caminhos concretos da espiritualidade, ou seja, os rituais.

Discorreu sobre o "acender de uma vela", sobre o criar um espaço sagrado que nos mantém retirados do poder do mundo.

Lembrou-nos de que sagrado também tem a ver com "sanar", com cura.

Também discorreu sobre o nosso "tempo sagrado", ou seja, o momento em que eu sou absolutamente senhor do meu tempo, não importa o quão pequeno ele possa ser. Um momento para eu afirmar, juntamente com Deus, que eu estou vivendo, e não simplesmente sendo vivido. Quem vive somente para preencher as expectativas alheias vive uma vida amarga.

Grün também falou dos rituais que nos ligam aos nossos antepassados, dando o exemplo de sua própria família que há mais de um século, no Natal, realiza os mesmos rituais. Que uma alma que perdeu suas raízes pode se tornar uma alma deprimida. Enfatizou que os rituais nos levam ao encontro.

Enfatizou a importãncia de rituais que abram as portas e que fechem as portas, tanto no início como no fim de ciclos, sejam eles diários, ou por maior período de tempo. A idéia é que eu esteja completamente presente no momento. Rituais simples de saída do trabalho, chegada no lar, etc.

Os rituais que transformam o mundo trazem Deus para dentro de nossa vida, e nossa vida leva Deus para as pessoas.

Também ensinou que a celebraçáo litúrgica tem uma dimensão um tanto quanto terapêutica.

Sobre a oração, falou desta como um sinal de relacionamento, que me põe em contato com Deus e me prepara para a relação com o meu próximo. Na oração, não sou deixado sozinho com meus problemas, com minhas crises, com minhas questões. Na oração, abro-me do jeito que eu sou. Há cura no momento de encontro com Deus.

A ascese, segundo o monge alemão, é o exercício da liberdade interior. Citando Freud, disse que, aquele que não renuncia a nada não saberá sentir o sabor das coisas.

Também falou sobre o ano litúrgico, de como ele pode se tornar um sistema terapêutico. No calendário litúrgico, entramos em contato com um ritmo. O advento, por exemplo, é o momento do desejo, da busca. O natal, é o momento litúrgico do nascimento de Deus na alma humana. Recomeça novamente a vida de Deus em nossas vidas. A Quaresma, que é o tempo da purificação, pratico o exercício da liberdade interior. A Páscoa, é o momento da vida plena, onde a vida floresce em nós.

Observou também que todos os sacramentos da igreja (no catolicismo, são sete) remetem o ser à uma maior qualidade de vida espiritual, visto que os tais acompanham os fiéis por toda a vida. Que na eucarístia, por exemplo, além de todas as outras figuras, celebramos a nossa própria transformação interior. Que no cálice, transformamos as nossas amarguras na vida de um doce amor. A morte e a ressurreição do Cristo opera uma transformação em nós onde não há dureza de coração que não possa mudar-nos, onde o errado recomeça, onde não há túmulo em que a vida não possa ressurgir, onde nossa vida é preenchida de esperança... E assim foi.

Foi, portanto, uma palestra em linguagem simples, em que ele expôs um pouco daquilo que com mais prufundidade trata em seus livros (vários títulos traduzidos no Brasil). Penso que cristãos de todas as denominações podem se beneficiar da leitura do referido monge. De modo geral, ele escreve em linguagem simples. Alguns o acham, as vezes, mais psicólogo do que um teólogo da igreja, e, de fato, talvez tal impressão seja verdadeira em alguns de seus escritos. Particularmente, já me beneficiei e continuo me beneficiando com a leitura de algumas de suas obras, entre elas "O céu começa em você", "Espiritualidade a partir de si mesmo", "As exigências do silêncio", entre outras.

No final da palestra, após um rápido intervalo, ele abriu para perguntas. Foi bem legal. Eu perguntei (meio que representando os, às vezes, chatos da teologia da libertação) se o caminho da espiritualidade proposto não poderia conduzir a um certo individualismo frente ás questões, aos problemas sociais. Não é pra me gabar não (já me gabando) ele deu bastante atenção a esta questão, e, resumindo, disse que de fato, há sempre tal risco, mas que uma espiritualidade que não me abra para o sofrimento alheio é uma espiritualidade narcisista e doente. Em uma pergunta anterior, sobre como ser espiritual em um contexto miserável, ele contou a história de um jovem que frente a tais questões se sentia tão angustiado que não mais conseguia orar, não conseguia expressar alegria, felicidade, e que portanto é de bom tom não se perder o contato com Deus, a fonte da vida, mas sem deixar de olhar para o sofrimento alheio (enfim, propôs um certo equilíbrio).

Foi isso.

Por Carlos Seino.
http://blogdoseino.blogspot.com/

3 comentários:

Blog da Vovó disse...

Muito boa a sua idéia de postar um resumo da palestra de Anselm Grün no seu blog. Se você tiver interesse, visite o Blog da Teo - blogdateo.blogspot.com - que lá você encontrará também as anotações do tema que ele abordou no encontro realizado no mesmo dia pela manhã no Mosteiro de São Bento, do qual participei.
Peço a sua licença para copiar seu texto e postar lá também, colocando a autoria do texto e o endereço do seu blog. Meu nome é Maria Aparecida de Cicco e o contato é teologiasantana@gmail.com - Grata

Carlos Seino disse...

Oi, Maria Aparecida!

Paz e bem!

Fique a vontade para publicar o texto no seu blog!!!

Para nós, é uma alegria!!!

(espero que tenha gostado da postagem!)

Desde já, peço licença também para postar o seu em nosso blog!!!

Um grande abraço (te mandei um email).

Carlos.

Guy Rodrigues e Mariane disse...

Sorte nossa termos encontrado este cantinho!
Olha achamos o maximo, juntos e na paz do senhor deichamos abraços fortes; voltaremos