quarta-feira, 14 de janeiro de 2009

A pequena semente

Nunca viste numa estrada abandonada, mas acariciada pela primavera, despontar a tenra erva e reflorescer, sem cessar, a vida?

Assim acontece com a humanidade que te circunda, se deixas de enxergá-la com o olhar da terra e a revigoras com o raio divino da caridade.

O amor sobrenatural em tua alma é um sol, que não admite trégua ao reflorescer da vida.
É uma vida, que é a pedra angular no teu ângulo de vida. Nada mais é preciso para soerguer o mundo, para restitui-lo a Deus.

O dom da palavra, a fineza do trato, o lampejo da arte, o cabedal de cultura, a experiência dos anos, são dotes, certamente, que não se devem descurar. Mas, para o Reino eterno vale o que tem mais vida.

É linda, e boa, e saborosa, e colorida, a fatia perfumada da maçã, mas, enterrada, morre e não deixa traço.

A pequena semente, que não agrada ao paladar, insípida e insulsa, enterrada, produz novas maçãs.

Assim a vida em Deus, a vida do cristão, o caminho incandescente da Igreja. Ela, alta e solene, apóia-se em colunas que os séculos disseram insensatas, idiotas, loucas...; sobre as quais investiu a fúria do príncipe do mundo, para destruir até o último rebento. Resistiram.
O Pai as podou para que, presas à videira, dessem frutos abundantes; e as exaltou, gloriosas, no Reino da vida.

Tu, eu, o leiteiro, o agricultor, o porteiro, o pescador, o operário, o camelô... E os outros todos, idealistas desiludidos, mães carregadas de pesos, noivos em vésperas de núpcias, velhinhas sem brilho à espera da morte, jovens vibrantes, todos... Todos são matéria-prima para a sociedade de Deus. Basta que haja neles um coração que mantenha alta, ereta, direcionada a Deus, a chama do amor.


Chiara Lubich

domingo, 11 de janeiro de 2009

Batismo do Senhor

É no batismo que recebe de João Batista que Jesus inicia Sua vida pública. Sendo o Filho, como foi testificado por Deus Pai, e, com Ele e o Espírito Santo que aparece em forma de pomba, são um, Jesus não tinha pecado e, portanto, não tinha nada a se arrepender para que recebesse o batismo. Mas, no batismo, Jesus demonstra que Sua missão é colocar-Se entre os pecadores, assumir seus pecados.

Assumindo nossa carne, Jesus vem em nosso socorro, Se faz um de nós, exceto no pecado e sendo Deus, pode nos resgatar em Seu sacrifício perfeito. O batismo de Jesus que começa no Jordão se consumará na cruz, onde Jesus será batizado no Seu sangue e assim nos redimirá. Da cruz brota o sacramento do batismo, o batismo no Espírito Santo que João diz, pois por meio dele somos justificados, lavados dos nossos pecados em Seu sangue, simbolizado pela água.

sexta-feira, 9 de janeiro de 2009

Muitos membros, um só corpo


Você já visitou alguma vez uma comunidade viva de cristãos realmente autênticos? Já participou de um encontro entre eles, ou conheceu mais de perto a vida de uma comunidade assim?
Se isso aconteceu, você terá percebido que as pessoas que a compõem desempenham funções diferentes; por exemplo: há quem tem o dom de falar e lhe comunica realidades espirituais que penetram profundamente na alma; há quem tem o dom de ajudar, de atender às necessidades dos outros e deixa você maravilhado diante dos sucessos alcançados em benefício daqueles que sofrem.

Há também quem ensina com tamanha sabedoria, a ponto de reforçar a fé que você já possui, ou ainda quem tem o dom de organizar ou de governar; há quem sabe entender todo próximo que encontra e é distribuidor de consolações aos necessitados.
É verdade, tudo isso você poderá experimentar; porém, aquilo que mais impressiona numa comunidade tão viva é o único espírito que a todos anima e que se tem a impressão de sentir pairar. Espírito esse que faz da comunidade uma única realidade, um só corpo.

“Há muitos membros e, no entanto, um só corpo.”

Também Paulo – e ele de um modo todo especial – se encontrou diante de comunidades cristãs vivíssimas, que nasceram justamente por causa da sua extraordinária palavra.
Uma dessas – ainda jovem – era a de Corinto, na qual o Espírito Santo tinha sido generoso em distribuir os seus dons, ou melhor, os carismas, como são chamados. Por sinal, naquele tempo se manifestavam carismas extraordinários, devido à vocação especial da Igreja nascente.

Aconteceu, porém, que depois de ter feito a maravilhosa experiência da diversidade de dons distribuídos pelo Espírito Santo, essa comunidade conheceu também rivalidades ou desordens, justamente entre aqueles que tinham sido beneficiados por esses dons.
Foi necessário, então, dirigir-se a Paulo, que estava em Éfeso, para pedir esclarecimentos.

Paulo não hesita e responde numa das suas importantes cartas, explicando como devem ser usadas essas graças especiais.
Ele explica que existe diversidade de carismas, diversidade de ministérios, como o dos apóstolos ou o dos profetas ou ainda o dos mestres, mas que um só é o Senhor do qual eles provêm. Diz ainda que, na comunidade, existem operadores de milagres e de curas, pessoas com o dom excepcional para o atendimento aos necessitados, outras para o governo, como também há quem sabe falar línguas e quem sabe interpretá-las. Mas acrescenta que um só é Deus, onde têm origem esses dons.

Portanto, como os diversos dons são expressões do mesmo Espírito Santo, que os distribui livremente, não podem deixar de estar em harmonia entre si, não podem deixar de ser complementares. Esses dons não servem para uma simples realização pessoal, não podem ser motivo de vanglória, ou de afirmação de si, mas foram dados para uma finalidade comum: construir a comunidade. A finalidade deles é o serviço. Por isso, não podem causar rivalidades ou confusão.

Paulo, mesmo pensando em dons particulares que diziam respeito diretamente à vida da comunidade, é do parecer que cada membro dessa comunidade tem a sua capacidade, o seu talento, que deve ser usado para o bem de todos, e que cada um deve ficar satisfeito com aquilo que tem.
Ele apresenta a comunidade como um corpo, e se pergunta: “Se o corpo todo fosse olho, onde estaria o ouvido? Se fosse todo ouvido, onde estaria o olfato? Realmente, Deus dispôs os membros, e cada um deles, no corpo, conforme quis. Se houvesse apenas um membro, onde estaria o corpo?” (cf. 1Cor 12,17-19) Mas, de fato,

“Há muitos membros e, no entanto, um só corpo.”

Se cada um é diferente dos outros, cada um pode então ser um dom para os outros; sendo, portanto, aquilo que deve ser e realizar o desígnio que Deus tem para ele em função dos outros.
Paulo vê na comunidade, onde os diversos dons funcionam, uma realidade à qual dá um nome esplêndido: Cristo. E com razão, pois este corpo tão original, composto pelos membros da comunidade, é realmente o Corpo de Cristo. Com efeito, Cristo continua a viver na sua Igreja, e a Igreja é o seu corpo. De fato, no batismo o Espírito Santo incorpora o batizando em Cristo, tornando-o assim membro da comunidade. Nela, todos foram transformados em Cristo, toda divisão é cancelada, toda discriminação é superada.

“Há muitos membros e, no entanto, um só corpo.”

Se o corpo é um só, os membros da comunidade cristã só atuam bem esse novo modo de viver se realizarem a unidade entre si; unidade que supõe a diversidade, o pluralismo. A comunidade não é como um bloco de matéria inerte, mas como um organismo vivo, composto por vários membros.
Para os cristãos, portanto, provocar divisões é o contrário do que devem fazer.

“Há muitos membros e, no entanto, um só corpo.”

Como, então, você viverá essa nova Palavra que a Escritura lhe propõe?
É necessário que você tenha um grande respeito pelas diversas funções, pelos dons e talentos da comunidade cristã.

Você deve abrir o seu coração para acolher toda a rica variedade da Igreja, e não só da pequena Igreja que você freqüenta e bem conhece, como a comunidade paroquial ou a associação cristã da qual participa, ou ainda o movimento eclesial do qual você é membro, mas de toda a Igreja universal, nas suas múltiplas formas e expressões.

Deve sentir que tudo lhe pertence, pois você faz parte desse único corpo.
E da mesma forma como você cuida de cada membro do seu corpo físico e o protege, deve cuidar e proteger cada membro do corpo espiritual. (...) Você deve estimar a todos e também fazer tudo o que está ao seu alcance para que possam tornar-se úteis à Igreja do melhor modo possível. (...)
Você não deve desprezar aquilo que Deus lhe pede, no lugar em que você se encontra – por mais que o trabalho cotidiano possa lhe parecer monótono e sem grande sentido –, pois pertencemos todos a um mesmo corpo e, como membro dele, cada um participa da atividade de todo o corpo permanecendo no lugar que Deus escolheu para ele.

Além disso, o essencial é que você tenha aquele carisma – como anuncia Paulo – que supera todos os outros: o amor. O amor para com toda pessoa que você encontra, o amor para com todos os homens da terra. Somente com o amor, com o amor recíproco, é que os muitos membros podem ser um só corpo.

Chiara Lubich

segunda-feira, 5 de janeiro de 2009

Epifania: A manifestação do Senhor.


"Levanta-te, acende as luzes, Jerusalém, porque chegou a tua luz, apareceu sobre ti a glória do Senhor. Eis que está a terra envolvida em trevas, e nuvens escuras cobrem os povos; mas sobre ti apareceu o Senhor, e sua glória já se manifesta sobre ti. Os povos caminham à tua luz e os reis ao clarão de tua aurora. Levanta os olhos ao redor e vê: todos se reuniram e vieram a ti; teus filhos vêm chegando de longe com tuas filhas, carregadas nos braços. Ao vê-los, ficarás radiante, com o coração vibrando e batendo forte, pois com eles virão as riquezas de além-mar e mostrarão o poderio de suas nações; será uma inundação de camelos e dromedários de Madiã e Efa a te cobrir; virão todos os de Sabá, trazendo ouro e incenso e proclamando a glória do Senhor".
(Isaías 60, 1-6)


Hoje comemoramos a Epifania do Senhor, isto é, a manifestação do Salvador para o mundo todo representado pelos três magos. A Tradição diz que eram reis; a Bíblia apenas afirma que eram magos, ou seja, estudiosos da natureza, observadores do céu. Assim como, seguindo a tradição das anunciações, os anjos apareceram aos pastores, que representavam os judeus, para anunciar o nascimento do Cristo Salvador, os magos, representantes dos gentios, pressentiram o fato através da observação da natureza, pois é assim que, aqueles que não conhecem o Deus verdadeiro podem reconhecer Sua existência. Não ficaram parados naquele astro. Puseram-se a caminho, foram ao encontro Daquele que é a plenitude da revelação divina e sem O qual ninguém pode se salvar, seja judeu ou gentio. Jesus põe fim a divisão dos povos chamando todos a Sua Igreja.

sexta-feira, 2 de janeiro de 2009

O Senhor é meu Pastor

"Talvez seja essa a dificuldade na vida de muitas pessoas hoje em dia. Conhecem a Palavra do Senhor, mas não conhecem o Senhor da Palavra Vivem uma vida cristã superficial e pobre de experiências com Cristo".

"Numa reunião festiva apresentou-se um jovem declamador, o qual elevou todos os presentes declamando com muita beleza e muito entusiasmo o Salmo 23 (22).
Ao terminar foi longamente aplaudido por todos, o que demonstrou que ele havia feito uma bela apresentação.

Outras partes se seguiram e, no final do programa, um Padre idoso que se encontrava presente, solicitou ao dirigente que lhe permitisse dizer algo, no que foi prontamente atendido.

Chegando à frente contemplou o grande auditório com olhar sereno. Houve um completo silêncio e ele, com voz pausada e firme, declamou com muita emoção o Salmo 23.

Ao terminar ninguém o aplaudiu, pois todos estavam emocionados e muitos choravam.

Terminada a sessão o jovem foi procurar o Padre e perguntou-lhe:
- Porque me aplaudiram tanto quando eu declamei o Salmo 23 e choraram e se emocionaram quando o senhor declamou o mesmo Salmo? Onde está a diferença?

O Padre com a mesma serenidade, respondeu-lhe:

- A diferença é muito simples, meu caro jovem.

Tu conheces o Salmo do Bom Pastor e eu conheço o Bom Pastor do Salmo. Talvez seja essa a dificuldade na vida de muitas pessoas hoje em dia. Conhecem a Palavra do Senhor, mas não conhecem o Senhor da Palavra. Falta-lhes intimidade e comunhão com o Senhor.

Vivem uma vida cristã superficial e pobre de experiências com Cristo. Cultivemos de tal maneira a nossa comunhão com Ele, de modo que possamos afirmar, como resultado de uma profunda e real experiência:

O Senhor é meu Pastor; e nada me faltará

Fonte: Eu estou Aki

sexta-feira, 26 de dezembro de 2008

Oitava de Natal


Estamos no período da Oitava do Natal, período este que se inicia em 25 de dezembro e se prolonga até o dia 01 de janeiro. Porém o Natal é uma festa que não tem data para terminar. Devemos fazer com que ele se estenda durante todo o ano, que não seja apenas uma simples festa de confraternização entre colegas de trabalho, amigos e familiares, mas uma festa no verdadeiro sentido que esta palavra encerra: o dia do Nascimento de Jesus Cristo, Senhor nosso.

Mas é isso que sempre acontece todo ano. O Natal não é apenas uma época de confraternização universal, mas a data que mais impulsiona os negócios no mundo inteiro. Por trás das comemorações, há uma grande cadeia produtiva e comercial que movimenta praticamente todos os setores da economia.

É uma época em que as pessoas gastam dinheiro, e decorar suas casas, trocar presentes, está se tornando mais e mais importante, relegando em segundo plano o grande protagonista da festa. Até em países sem histórico religioso, os habitantes estão começando a ver o Natal como uma festa familiar bonita e interessante e se sentem estimulados a fazer dele uma festa do consumismo. A tradição de enfeitar a casa, reunir a família para a ceia e a troca de presentes, se mantém mesmo em tempos de crise, e os consumidores não abrem mão disso.

Mas em meio a toda essa onda de consumismo desenfreado ainda há uma preocupação em se proporcionar um Natal digno às pessoas mais carentes. Graças a esse "espírito" do Natal, elas podem receber a atenção merecida daqueles que durante o ano ignoraram as suas existências. Não fosse as instituições não-governamentais, a Igreja e pessoas de boa vontade que durante todo ano deram-lhes a devida assistência, passariam despercebidas pela grande maioria que nesta época tentam diminuir o peso de suas consciências, presenteando-as.

Que todos nós possamos fazer de nossas vidas um perene Natal. Que em 2009 possamos ser melhores do que fomos em 2008. Que Ele, o aniversariante, nasça e renasça em nós todos os dias.

quinta-feira, 25 de dezembro de 2008

Onde e quando nasceu Jesus?


Perguntemos a Maria de Madalena, onde e quando nasceu Jesus. E ela nos responderá: - Jesus nasceu em Betânia. Foi certa vez, que a sua voz, tão cheia de pureza e santidade, despertou em mim a sensação de uma vida nova com a qual até então jamais sonhara.

Perguntemos a Pedro quando se deu o nascimento de Jesus. Ele nos responderá: - Jesus nasceu no pátio do palácio de Caifás, na noite em que o galo cantou pela terceira vez, no momento em que eu o havia negado. Foi nesse instante que acordou minha consciência para a verdadeira vida.

Perguntemos a Paulo de Tarso, quando se deu o nascimento de Jesus. Ele nos responderá: - Jesus nasceu na Estrada de Damasco quando, envolvido por intensa luz que me deixou cego, pude ver a figura nobre e serena que me perguntava: "Saulo, Saulo porque tu me persegues?" E na cegueira passei a enxergar um mundo novo quando eu lhe disse: " Senhor, o que queres que eu faça?!"

Perguntemos a Francisco de Assis o que ele sabe sobre o nascimento de Jesus. Ele nos responderá: - Ele nasceu no dia em que, na praça de Assis entreguei minha bolsa, minhas roupas e até meu nome para segui-lo incondicionalmente, pois sabia que somente ele é a fonte inesgotável de amor.

Perguntemos a Joana de Cusa onde e quando nasceu Jesus. E ela nos responderá: - Jesus nasceu no dia em que, amarrada ao poste do circo em Roma, eu ouvi o povo gritar: "Negue! Negue!" E o soldado com a tocha acesa dizendo: "Este teu Cristo ensinou-lhe apenas a morrer?" Foi neste instante que, sentindo o fogo subir pelo meu corpo, pude com toda certeza e sinceridade dizer: "Não me ensinou só isso, Jesus ensinou-me também a amá-lo."

"Perguntemos, a Maria de Nazaré onde e quando nasceu Jesus. E ela nos responderá: - Jesus nasceu em Belém. Foi quando O segurei em meus braços e senti se cumprir a promessa através daquele Menino que Deus enviara ao mundo, para ensinar aos homens o amor".

E você?...Não sabe ainda?.... Tens dúvidas e questionamentos?... Peça então em oração e ele nascerá para você.

segunda-feira, 15 de dezembro de 2008

Como viver o Evangelho no momento presente?


Se a Escritura ensina a fazer bem as pequenas coisas, esta é exatamente a característica de quem nada mais faz, com todo o coração, senão o que Deus lhe pede no presente.

Se alguém vive no presente Deus vive nele e se Deus está nele, nele está a caridade. Quem vive o presente é paciente, perseverante, manso, é pobre de tudo, é puro, misericordioso, porque possui o amor na sua expressão mais alta e genuína; ama a Deus verdadeiramente, com todo o coração, a alma e as forças; é iluminado interiormente, é guiado pelo Espírito Santo e portanto não julga, não pensa mal, ama o próximo como a si mesmo, tem a força da loucura evangélica de apresentar a outra face, e caminhar por duas milhas...

Muitas vezes encontra-se na posição de dar a César o que é de César, porque em muitos momentos deverá viver plenamente a sua vida como cidadão... e assim por diante.

Quem vive o presente está em Cristo Verdade.

E isto sacia a alma, que sempre anseia possuir tudo, em cada instante da sua vida.

(de Essere tua Parola, Città Nuova Editrice - 2008 p. 51)

domingo, 14 de dezembro de 2008

Descer para subir

«Jesus veio para reunir, para curar, para criar laços, para reconciliar.
Ele partilhou a nossa angústia para que, através dela, fôssemos capazes de reencontrar o caminho para Deus.
Jesus desceu para subir. "Esvaziou-se de si mesmo... rebaixou-se a si mesmo, tornando-se obediente até à morte e morte de cruz. Por isso mesmo é que Deus o elevou acima de tudo e lhe concedeu o nome que está acima de todo o nome..." (Fl 2, 7-9).

Tudo em mim quer subir. A mobilidade descendente com Jesus choca radicalmente contra as minhas inclinações, contra os conselhos do mundo que me rodeia e contra a cultura da qual faço parte. Para onde quer que me vire sou confrontado com a minha forte resistência a seguir Jesus no seu caminho para o calvário, e com os meus incontáveis modos de evitar a pobreza, quer material, quer intelectual, quer emocional.
Só Jesus, no qual reside a plenitude de Deus, poderia escolher livremente ser inteiramente pobre

(Henri Nouwen, em "A Caminho de Daybreak")

sexta-feira, 5 de dezembro de 2008

O Paraíso em nós e entre nós


Jesus dirigindo aos apóstolos garantiu-lhes, entre outras coisas, que haveriam de vê-lo novamente, porque ele se manifestaria àqueles que o amam.

Porém Ele explica que a sua manifestação não se daria de modo espetacular e externo. Seria uma simples, mas extraordinária “vinda” da Trindade ao coração do fiel, vinda que se realiza lá onde existe fé e amor.

A sua presença, portanto, pode acontecer desde já nos cristãos e no meio da comunidade; não é necessário esperar o futuro. O templo que acolhe essa presença não é tanto um templo feito de paredes, mas o próprio coração do cristão, que se torna, assim, o novo tabernáculo, a morada viva da Trindade.

Mas como pode o cristão chegar a isso? Como conter em si o próprio Deus? Qual o caminho para entrar nesta profunda comunhão com Ele?

É o amor para com Jesus.

Um amor que não é mero sentimentalismo, mas que se traduz em vida concreta e, mais precisamente, na observância da sua Palavra.

É a este amor do cristão, comprovado pelos fatos, que Deus responde com o seu amor. E a Trindade vem morar nele.

E quais são as palavras que o cristão é chamado a guardar?

No Evangelho de João, a expressão “as minhas palavras” é quase sempre sinônimo de “os meus mandamentos”. O cristão, portanto, é chamado a observar os mandamentos de Jesus. Estes, porém, não devem ser entendidos como um compêndio de leis. Pelo contrário; é preciso vê-los todos sintetizados naquilo que Jesus ilustrou com o lava-pés; o mandamento do amor recíproco. Deus ordena que cada cristão ame o outro até a doação total de si mesmo, como Jesus ensinou e fez.

E como poderemos viver bem esta Palavra? Como chegar ao ponto em que o próprio Pai nos amará e a Trindade virá habitar em nós?

Atuando com todo o nosso coração, com radicalidade e perseverança, o amor recíproco entre nós.

É principalmente nisto que o cristão encontra também o caminho daquela profunda ascese cristã que o Crucificado exige de nós. É justamente o amor recíproco que faz florescer no seu coração todas as virtudes e é nesse amor que se coloca à prova, com segurança, a própria santificação.


É, enfim, no amor recíproco que Jesus está presente, como Ressuscitado, no coração dos cristãos e no meio deles.


Chiara Lubich









quarta-feira, 3 de dezembro de 2008

Não seja feita a minha vontade, mas a tua.


Você se lembra? É a oração que Jesus dirige ao Pai no Horto das Oliveiras e que dá sentido à sua paixão, depois da qual veio a ressurreição. Essa frase exprime em toda a sua intensidade o drama que se passa no íntimo de Jesus. Revela a ferida interior provocada pela repugnância profunda da sua natureza humana diante da morte que o Pai quis para ele.

Mas Cristo não esperou esse dia para adequar a sua vontade à vontade de Deus. Ele fez isso durante toda a vida. Se foi essa a conduta de Cristo, essa deve ser a atitude de cada cristão. Também você deve repetir na sua vida:

“Não seja feita a minha vontade, mas a tua!”

Talvez você ainda não tenha pensado nisso, mesmo sendo batizado, mesmo sendo filho da Igreja. Talvez você tenha reduzido essa frase a uma mera expressão de resignação, que se pronuncia quando não se pode fazer mais nada. Mas essa não é a sua verdadeira interpretação. Veja bem. Na vida você pode escolher uma destas duas direções: fazer a própria vontade ou optar livremente por fazer a vontade de Deus.

Então você terá diante de si duas possibilidades: a primeira, que será logo decepcionante, porque você vai querer escalar a montanha da vida com suas idéias limitadas, com seus próprios recursos, com seus pobres sonhos, somente com as suas forças.

A partir daí, mais cedo ou mais tarde, virá a experiência da rotina de uma existência marcada pelo tédio, pela mediocridade, pelo pessimismo e, às vezes, pelo desespero.
A partir daí virá a experiência de uma vida monótona – apesar dos seus esforços para torná-la interessante – que nunca chegará a satisfazer suas exigências mais profundas. Isso você tem que admitir, não pode negar. A partir daí, no final de tudo, ainda virá uma morte que não deixará rastro algum, mas apenas algumas lágrimas e depois o esquecimento inexorável, total e universal. A segunda possibilidade é aquela em que também você repete:

“Não seja feita a minha vontade, mas a tua!”

Veja bem: Deus é como o sol. Do sol partem muitos raios que atingem cada homem: representam a vontade de Deus para cada um. Na vida, o cristão, e também todo homem de boa vontade, é chamado a caminhar rumo ao sol, na luz do seu próprio raio, diferente e distinto de todos os outros. Assim realizará o projeto maravilhoso, pessoal, que Deus preparou para ele.
Se também você agir assim, vai se sentir envolvido numa divina aventura, nunca sonhada. Você será ao mesmo tempo ator e espectador de algo grandioso que Deus realiza em você e, por meio de você, na humanidade.

Tudo o que lhe acontecer, como sofrimentos e alegrias, graças e desgraças, fatos de relevo (como sucessos e sorte, acidentes ou mortes de entes queridos), fatos corriqueiros (como o trabalho do dia-a-dia em casa, no escritório ou na escola), tudo, tudo vai adquirir um significado novo porque lhe será oferecido pelas mãos de Deus que é Amor. Tudo o que ele quer, ou permite, é para o seu bem. E se, de início, você acreditar nisso somente com a fé, depois enxergará com os olhos da alma como que um fio de ouro a ligar acontecimentos e coisas, a tecer um magnífico bordado, que é o projeto que Deus preparou para você.

Talvez você se sinta atraído por esse modo de ver as coisas, talvez queira sinceramente dar à sua vida o sentido mais profundo. Então ouça. Antes de tudo vou lhe dizer quando você deve fazer a vontade de Deus. Pense um pouco: o passado já se foi e você não pode mais alcançá-lo; só lhe resta colocá-lo na misericórdia de Deus. O futuro ainda não chegou; você vai vivê-lo quando ele se tornar atual. Apenas o momento presente está em suas mãos. É justamente nele que você deve procurar viver a frase:

“Não seja feita a minha vontade, mas a tua!”

Quando você viaja – e também a vida é uma viagem –, permanece sentado tranqüilamente em seu lugar. Nem lhe passa pela cabeça a idéia de ficar caminhando para frente e para trás no ônibus ou no vagão do trem.

Essa atitude seria de quem quisesse viver a vida sonhando com um futuro ainda inexistente, ou pensando no passado que jamais voltará. Não, o tempo caminha por si mesmo. É preciso concentrar-se no presente; então chegaremos à plena realização de nossa vida terrena.

Você me perguntará: mas como posso distinguir entre a vontade de Deus e a minha?
No presente não é difícil saber qual é a vontade de Deus. Vou lhe indicar um caminho: preste atenção à voz do seu íntimo, uma voz sutil, que talvez você tenha sufocado muitas e muitas vezes, e que se tornou quase imperceptível. Mas, procure ouvi-la bem – é voz de Deus (Jo 18,37; Ap 3,20).

Ela lhe diz que este é o momento de estudar, ou de amar algum necessitado, ou de trabalhar, ou de vencer uma tentação, ou de cumprir um dever de cristão ou outro dever de cidadão. Ela o convida a dar ouvidos a alguém que lhe fala em nome de Deus, ou a enfrentar corajosamente situações difíceis...

Ouça, ouça. Não sufoque essa voz. É o tesouro mais precioso que você possui. Siga-a. E, então, você construirá momento por momento a sua história, que é ao mesmo tempo história humana e divina, porque feita por você em colaboração com Deus. E você verá maravilhas. Verá o que Deus pode realizar numa pessoa que diz com toda a sua vida:

“Não seja feita a minha vontade, mas a tua!”


Chiara Lubich
Esta Palavra de Vida foi publicada originalmente em agosto de 1978.

sexta-feira, 28 de novembro de 2008

O Segredo do Perdão

"O perdão é divino, é o segredo mais profundo de Jesus,
é o coração do Evangelho,
é o dom que Jesus nos quer dar
para que nos tornemos agentes de unidade, artíficies da paz.
Uma comunidade, uma família não pode existir se não está fundada no perdão.
E o perdão começa pelo reconhecimento de que cada um tem o seu lugar,
o seu dom a exercer."

(Jean Vanier, em "A Fonte das Lágrimas")

sexta-feira, 21 de novembro de 2008

DEIXAR-SE AMAR

«O amor gratuito não espera dividendos nas suas actuações e investe o seu capital sem juros...

Qual será o prémio de quem corresponde ao amor gratuito de Deus senão a de ser amado por Ele e a de compartilhar com Ele a vida eterna que Ele dá como herança, de forma condicionada no presente (o cem vezes mais) e de forma plena no futuro?

Na presença do nosso Deus revelado, ninguém tem o direito de dizer: «não posso rezar porque não sei amar». Precisa, sim, de se deixar amar como a criança e pôr-se na escola do amor.

Henri Caffarel conta uma história passada em Itália em fins do séc. XVIII, num convento em construção na encosta dos Apeninos: o prior do convento chamou o arquitecto e mandou-lhe construir uma cela isolada sem janelas, com frinchas que apenas deixassem entrar alguns raios de sol; nada mais dentro da cela a não ser uma inscrição com estas palavras: «Amo-te exactamente como és».
Nessa cela, ia ser proibido qualquer pensamento ou tema de meditação para além deste: «Deus ama-me infinitamente, ternamente, Deus ama-me exactamente como sou».
A cela destinava-se a algum monge que andasse triste ou ansioso a perguntar-se «como é que o Senhor pode amar alguém como eu?». (1)

Quem não sabe amar a Deus entre na cela do monge e deixe-se lá ficar; veja a inscrição na parede e não pense em mais nada. «Deus que te ama gratuitamente, te ensinará a amar».

Luís Rocha e Melo, em "Se tu soubesses o dom de Deus"

(1) Caffarek, H., L´oraison de pauvreté, p. 6-8

domingo, 16 de novembro de 2008

Negue-se a si mesmo...

«Se alguém quer vir após Mim, negue-se a si mesmo, tome a sua cruz, dia após dia, e siga-Me» (Lc 9, 23)

Não pensemos que, por estarmos neste mundo, podemos viver ao seu sabor como um peixe na água. Não pensemos que, pelo fato de o mundo nos entrar em casa através de certos programas de rádio ou da televisão, nos seja permitido ouvir todos os programas e ver todas as transmissões que fazem. Não pensemos que, por andarmos pelas estradas do mundo, podemos olhar impunemente para todos os cartazes e comprar no quiosque ou na livraria, indiscriminadamente, qualquer tipo de publicação. Não pensemos que, por estarmos no meio do mundo, podemos imitar e assumir os modos de viver do mundo: experiências fáceis, imoralidade, aborto, divórcio, ódio, violência, roubo. Não, não. Nós estamos no mundo. E isso é evidente. Mas não somos do mundo (2).

E isso implica uma grande diferença. Classifica-nos entre aqueles que não se alimentam das coisas mundanas e superficiais, mas das que nos são expressas, dentro de nós, pela voz de Deus que está no coração de cada pessoa. Se a escutarmos, faz-nos penetrar num reino que não é deste mundo. Um reino onde se vive o amor verdadeiro, a justiça, a pureza, a mansidão, a pobreza. Onde vigora o domínio de si mesmo.

Porque é que muitos jovens fogem para o Oriente, para a Índia, por exemplo? É porque tentam encontrar ali um pouco de silêncio e aprender o segredo de algumas figuras importantes, grandes na espiritualidade, que, pela profunda mortificação do seu “eu” inferior, deixam transparecer um amor (…) que impressiona todos os que deles se aproximam. É a reação natural à confusão do mundo, ao barulho que reina fora e dentro de nós, que já não dá espaço para o silêncio, para se ouvir Deus.

Coitados de nós! Mas será mesmo preciso ir à Índia, quando há dois mil anos Cristo nos disse: «nega-te a ti mesmo… nega-te a ti mesmo…»?

A vida cômoda e tranqüila não é para o cristão. Se quisermos seguir Cristo, ele não pediu nem nos pede menos do que isto.

O mundo invade-nos como um rio na época das cheias, e nós temos que ir contra a corrente. O mundo para o cristão é um matagal cerrado, e é preciso ver onde se põem os pés. E onde é que devemos pôr os nossos pés? Sobre aquelas pegadas que o próprio Cristo, ao passar nesta Terra, nos deixou assinaladas: são as Suas Palavras. Hoje, Ele diz-nos de novo:

«Se alguém quer vir após Mim, negue-se a si mesmo…».

Por causa disso, talvez se venha a ser alvo de desprezo, de incompreensão, de zombarias, de calúnias. Podemos ter que nos isolar, que aceitar a desconsideração, que abandonar um cristianismo de fachadas.
Mas Jesus continua:

«Se alguém quer vir após Mim, negue-se a si mesmo, tome a sua cruz, dia após dia, e siga-Me».

Quer queiramos, quer não, o sofrimento amargura a nossa existência. Também a tua. E, todos os dias, chegam-nos pequenos ou grandes sofrimentos. Gostarias de te livrar deles? Revoltas-te? Dão-te vontade de te lamentares? Então, não és cristão.

O cristão ama a cruz, ama o sofrimento, mesmo entre lágrimas, porque sabe que tem valor. Não foi em vão que, entre os muitos meios de que Deus dispunha para salvar a humanidade, escolheu o sofrimento. Mas Ele – lembra-te –, depois de ter levado a cruz e de ser nela crucificado, ressuscitou.

A ressurreição é também o nosso destino (3). Se aceitarmos com amor – em vez de o desprezarmos – o sofrimento que nos vem da nossa coerência cristã e todos os outros que a vida nos traz, havemos de experimentar, então, que a cruz é o caminho, já nesta Terra, para uma alegria nunca antes experimentada. A vida da nossa alma começará a crescer. O reino de Deus em nós adquirirá consistência. E lá fora, pouco a pouco, o mundo vai desaparecendo aos nossos olhos e parecer-nos-á de cartão. E já não vamos ter inveja de ninguém.
Nessa altura já nos podemos considerar discípulos de Cristo:

«Se alguém quer vir após Mim, negue-se a si mesmo, tome a sua cruz, dia após dia, e siga-Me».

E, como Cristo a quem seguimos, seremos luz e amor para as chagas sem número que dilaceram a humanidade de hoje.
Chiara Lubich

Palavra de Vida, Julho de 1978. Publicada em Essere la tua Parola, Chiara Lubich e cristiani di tutto il mondo, Roma 1980, pp. 67-69;

2) cf. Jo 17, 14;

3) cf. Jo 6, 40.

sábado, 15 de novembro de 2008

SER INTEIRAMENTE AMOR

"Se não houvesse mais do que contemplar a Deus eternamente, como um bonito espectáculo ou uma linda obra de arte, uma purificação tão completa, tão total, queimando até à raiz do egoísmo, talvez não fosse absolutamente necesária.

Mas, dado que o Deus vivo não é senão Amor, dado que a nossa vocação de homem é entrar n´Ele para viver para sempre a Sua Vida e ser capaz de amar como Ele ama, temos de admitir que nem um átomo de egoísmo pode subsistir aí, onde não há senão amor.

É por isso que a alegria mais sublime, o que faz com que sejamos cristãos - não ser senão eternamente um com o amor infinito - leva necessariamente consigo a mais sublime exigência: ser eu mesmo inteiramente amor, ser puramente, isto é, unicamente amor, sem nenhuma atenção nem olhar nem encerramento sobre mim." (François Varillon, em "Alegria de Crer e Viver")

sábado, 1 de novembro de 2008

VERDADEIRA FELICIDADE

«... nós sonhamos com uma felicidade de saldo, feita de alegrias fáceis. É este sonho que Jesus vem condenar, e o que Ele propõe (é esta a palavra essencial) é que o nosso apetite de felicidade seja ele próprio transformado.

Felizes, bem-aventurados aqueles cuja alma é suficientemente elevada para que o seu desejo essencial seja o de viver como filhos do Pai que está nos céus!(...) a verdadeira festa humana, a única afinal , é saber-se filho de Deus. Jesus trá-la aos homens. é preciso acolhê-la, isto é, fazer a experiência da filiação divina: viver, e não só pensar, como filhos que têm um Pai.» -(François Varillon, em "Alegria de Crer e de Viver")

domingo, 26 de outubro de 2008

Uma Palavra de Cristo

"Gostava de descobrir em cada manhã de quarta-feira as caras ensonadas das crianças a quem dava catecismo. Durante dois anos, contei-lhes histórias dos evangelhos. A seguir dizia-lhes para copiarem uma palavra de Cristo num caderno, e era uma coisa tão bela como convidar uma pequena assembleia de pintarroxos a escrever uma frase que falasse do sol." - Christian Bobin, em "Ressuscitar"

domingo, 19 de outubro de 2008

Seguir Jesus


"A decisão de seguir o Senhor não é exactamente como assinar um documento ou como pronunciar um juramento; é antes o contínuo sacrifício quotidiano de levar por diante esta decisão, para toda a vida.
Para te fazeres santo não é necessário que sejas culto nem que tenhas um talento extraordinário. Basta-te a graça de Deus e a tua determinação pessoal. São poucos aqueles que se tornam santos, pois é mais fácil adquirir cultura do que alcançar a santidade, mudando completamente a própria vida." Francisco Xavier Nguyen Van Thuan, "O Caminha da Esperança"

domingo, 12 de outubro de 2008

O «Uniforme» do Amor


«O Senhor exortou os apóstolos a vestir apenas um «uniforme», simples mas difícil de encontrar: «Por isto é que todos conhecerão que sois meus discípulos: se vos amardes uns aos outros» (Jo 12, 35). Francisco Xavier Nguyen Van Thuan, em "O Caminho da Esperança"

sexta-feira, 3 de outubro de 2008

Dai e vos será dado...

“Dai e vos será dado. Uma medida boa, socada, sacudida e transbordante será colocada na dobra da vossa veste”.
(Lc 6,38)

Nunca aconteceu a você receber um presente de um amigo e sentir a necessidade de retribuir não tanto para ficar sem dever nada, mas para expressar um amor verdadeiro, cheio de gratidão? Provavelmente sim.

Se isso acontece com você, imagine então com Deus, com Deus que é Amor. Ele retribui sempre todo bem que fazemos ao nosso próximo em nome dele. É uma experiência que os verdadeiros cristãos fazem constantemente. E cada vez é uma surpresa. Nunca nos acostumamos com a fantasia de Deus. Eu poderia citar mil, dez mil exemplos; eu poderia escrever um livro a esse respeito. Então você perceberia como é verdadeira esta imagem: “Uma medida boa, socada, sacudida e transbordante será colocada na dobra da vossa veste”, que significa a abundância com que Deus retribui, significa a sua magnanimidade.

“Já anoitecera na cidade de Roma. E num apartamento, um pequeno grupo de moças que queriam viver o Evangelho preparava-se para dormir. Mas a campainha soou. Quem seria àquela hora? Era um senhor em pânico, desesperado: no dia seguinte seria despejado de casa com toda a família, porque não tinha como pagar o aluguel. As jovens se entreolharam e, de comum acordo, abriram a gaveta onde guardavam, em diferentes envelopes, o que tinha sobrado de seus ordenados e uma reserva para pagar as contas de gás, telefone e luz. Deram tudo àquele senhor, sem raciocinar. Naquela noite dormiram felizes. Alguém haveria de pensar nelas.

O dia nem tinha clareado, e o telefone tocou. ‘Vou tomar um táxi, logo mais estarei aí’ – era a voz daquele senhor. Surpresas com o fato de ele vir de táxi, as jovens ficaram à sua espera. O rosto dele dizia que alguma coisa tinha acontecido: ‘Ontem à noite, logo que cheguei em casa, me entregaram uma pequena herança que nunca imaginaria receber. Meu coração diz que devo dividi-la ao meio com vocês’. A importância correspondia exatamente ao dobro do que generosamente haviam dado”.

“Dai e vos será dado. Uma medida boa, socada, sacudida e transbordante será colocada na dobra da vossa veste”.

Também você já fez essa experiência? Se ainda não, lembre-se de que é preciso dar desinteressadamente, sem esperar nada em troca, a quem quer que lhe peça.
Experimente. Mas não para ver o resultado, e sim para amar a Deus.
Você me dirá: “Mas eu não tenho nada”.
Não é verdade. Se quisermos, temos tesouros inesgotáveis: nosso tempo livre, nosso coração, nosso sorriso, nosso conselho, nossa cultura, nossa paz, nossa palavra capaz de convencer aquele que tem para dar a quem não tem...

Você me dirá ainda: “Mas não sei a quem dar”.
Olhe ao seu redor: lembra-se daquele doente no hospital, da senhora viúva sempre só, daquele amigo desanimado e sem rumo, daquele jovem desempregado sempre triste, do irmãozinho que precisa de ajuda, daquele amigo na prisão, daquele aprendiz hesitante? É neles que Cristo espera você.

Assuma o comportamento novo do cristão – que permeia todo o Evangelho – que é o não-fechamento e a não-preocupação. Renuncie a depositar a sua segurança nos bens terrenos e apóie-se em Deus. É nisso que se demonstrará sua fé nele, que logo será confirmada pela dádiva que receberá em troca.

É lógico que Deus não se comporta assim para enriquecer você ou nos enriquecer. Ele age assim para que outros – muitos outros – vendo os pequenos milagres que o nosso doar desencadeia, façam o mesmo.

Ele age assim para que, quanto mais tivermos, mais possamos dar; para que – como verdadeiros administradores dos bens de Deus – façamos circular tudo na comunidade ao nosso redor, a fim de que se possa dizer dela o que se dizia da primeira comunidade de Jerusalém: “Não havia necessitados entre eles.” (At 4,34)

Não sente que, agindo dessa forma, você ajuda a dar um espírito seguro à revolução social que o mundo espera?

“Dai e vos será dado”.

Certamente Jesus pensava, acima de tudo, na recompensa que teremos no Paraíso. Mas o que acontece na Terra já é prelúdio e garantia disso.

Chiara Lubich

Esta Palavra de Vida foi publicada originalmente em junho de 1978.

segunda-feira, 29 de setembro de 2008

SEMPRE PRESENTE

"Na tarde da sua ressurreição, Jesus aproxima-se de dois dos seus discípulos que se dirigem para a aldeia de Emaús. Mas eles não se apercebem que é o Ressucitado que caminha a seu lado.(ver Lucas 24, 13-35).
Há momentos na vida em que se dissipa a consciência de que o Ressuscitado nos acompanha, pelo Espírito Santo. Reconhecido ou ignorado, Ele está presente, mesmo nos momentos em que nada nos deixa pressenti-lo." Irmão Roger, de Taizé, em "Viver em tudo a Paz do Coração"

sábado, 13 de setembro de 2008

Amai os vossos inimigos

“Amai os vossos inimigos e fazei o bem aos que vos odeiam. Falai bem dos que falam mal de vós e orai por aqueles que vos caluniam.”
(Lc 6,27-28)

“Amai os vossos inimigos”. Isto, sim, é revolucionário! Isto, sim, produz uma reviravolta no nosso modo de pensar e faz com que todos dêem uma guinada no timão de suas vidas!
Porque, sejamos sinceros, algum inimigo… pequeno, ou mesmo grande, todos nós temos.

Está ali do outro lado da porta do apartamento vizinho, naquela senhora tão antipática e intrigante, que procuro sempre evitar toda vez que está para entrar comigo no elevador…
Está naquele meu parente que trinta anos atrás agiu mal com meu pai, e que por isso deixei de cumprimentar…
Senta-se atrás de você na escola e nunca, nunca mais você olhou para a sua cara desde que ele o acusou para o professor…
É aquela menina que você namorava e que depois o trocou por outro…
É aquele comerciante que o enganou…
São aqueles que, do ponto de vista político, não pensam como nós e por isso declaramos nossos inimigos.
E hoje há quem vê o Estado como inimigo, e pratica violência contra pessoas que podem representá-lo.
Assim como existem, e sempre existiram, pessoas que consideram inimigos os sacerdotes e odeiam a Igreja.

Pois bem, todos esses e uma infinidade de outros, que chamamos inimigos, devem ser amados.
Devem ser amados?
Sim, devem ser amados! E não nos iludamos de que podemos resolver o problema simplesmente mudando o sentimento de ódio por outro mais benévolo.
É preciso algo mais.
Ouça o que diz Jesus:

“Amai os vossos inimigos e fazei o bem aos que vos odeiam. Falai bem dos que falam mal de vós e orai por aqueles que vos caluniam”.

Está vendo? Jesus quer que vençamos o mal com o bem. Quer um amor traduzido em gestos concretos.
É espontânea a pergunta: como é que Jesus deu um mandamento como este?
A realidade é que Ele quer que a nossa conduta tenha como modelo a mesma de Deus, seu Pai, que “faz nascer o seu sol sobre maus e bons e faz cair a chuva sobre justos e injustos”. (Mt 5,45)
É isto. Não estamos sozinhos no mundo: temos um Pai e devemos nos assemelhar a ele. Não só, mas Deus tem direito a esse nosso comportamento porque, enquanto nós éramos seus inimigos, estávamos ainda no mal, Ele foi o primeiro a nos amar (cf. 1Jo 4,19), mandando-nos o seu Filho, que morreu daquela maneira terrível por nós, cada um de nós.

“Amai os vossos inimigos e fazei o bem aos que vos odeiam...”

Tinha aprendido essa lição o pequeno Jerry, o menino negro de Washington que, devido ao seu elevado coeficiente de inteligência, fora admitido numa classe especial formada só por meninos brancos. Mas a sua inteligência não tinha sido suficiente para convencer os colegas de que era igual a eles. A sua pele negra havia atraído o ódio geral, tanto é que, no dia de Natal, todos os meninos trocaram presentes, ignorando Jerry. O menino chorou; é compreensível! Mas quando chegou a sua casa pensou em Jesus: “Amai os vossos inimigos” e, de acordo com a mãe, comprou presentes, que distribuiu com amor a todos os seus “irmãos brancos”.

“Amai os vossos inimigos... orai por aqueles que vos caluniam.”

Como sofreu naquele dia Elisabete, a menina italiana que, ao entrar na Igreja para assistir à missa, foi ridicularizada por um grupo de colegas! Embora quisesse reagir, sorriu e, já na igreja, fez uma oração especial por eles. Na saída perguntaram-lhe o motivo do seu comportamento, que ela explicou com o fato de ser cristã. Devia, portanto, amar sempre. E disse isso com uma ardorosa convicção. O seu testemunho foi premiado: no domingo seguinte viu todos aqueles colegas na igreja, muito atentos, na primeira fila.

Assim os jovens encaram a palavra de Deus. Por isso são grandes diante dele.
Talvez convenha que também nós resolvamos alguma situação, tanto mais que seremos julgados da maneira como julgarmos os outros. De fato, somos nós que damos a Deus a medida com a qual Ele deverá medir-nos (cf. Mt 7,2). Porventura não lhe pedimos: “Perdoai as nossas ofensas, assim como nós perdoamos a quem nos tem ofendido” (cf. Mt 6,12)? Portanto, amemos o inimigo!

Só agindo assim podemos recompor as faltas de unidade, derrubar barreiras, construir a comunidade.
É pesado? É difícil? Só o fato de pensar nisso já nos tira o sono? Coragem! Não é o fim do mundo: um pequeno esforço de nossa parte, depois os restantes 99 por cento Deus é quem faz e… no nosso coração haverá uma alegria imensa.


Chiara Lubich

sábado, 2 de agosto de 2008

Se teu olho é simples

“A lâmpada que ilumina o corpo é o olho. Se teu olho for transparente, ficarás todo cheio de luz”. (Lc 11,34)

Em todos os próximos que encontras no teu dia, da manhã à noite, vê neles Jesus.

Se o teu olho é simples, quem olha por ele é Deus. E Deus é amor, e o amor quer unir, conquistando.

Quantos, errando, olham as criaturas e as coisas para possuí-las! E esse olhar é egoísmo, ou inveja ou, seja como for, pecado. Ou olham para dentro de si para se possuírem, para possuírem as próprias almas, e esse olhar é apagado, porque perturbado ou entediado.

A alma, porque imagem de Deus, é amor; e o amor, voltado sobre si mesmo, é como a chama que, não alimentada, se apaga.

Olha para fora de ti, não para ti, nem para as coisas, nem para as criaturas: olha para Deus fora de ti para unir-te a Ele.

Ele está no fundo de cada alma que vive e, se morta – ou seja, não está na graça de Deus, é tabernáculo de Deus, que ela espera para alegria e expressão da própria existência.

Olha, portanto, cada irmão amando; e amar é doar. Mas dádiva chama dádiva, e serás por ele amado.

Assim, o amor é amar e ser amado, como na Trindade.

E Deus em ti arrebatará os corações, acendendo nesses corações a Trindade que neles repousa quem sabe, pela graça, mas neles está apagada.

Não acendes a luz em um ambiente – mesmo havendo a corrente elétrica – enquanto não fizeres a ligação dos pólos.

Do mesmo modo é a vida de Deus em nós: deve ser posta em circulação para ser irradiada fora testemunhando Cristo: o único que une o Céu à terra, o irmão ao irmão.

Olha, portanto, cada irmão doando-te a ele para doar-te a Jesus, e Jesus se doará a ti. É lei de amor: “Dai e vos será dado” (Lc 6,38).

Deixa-te invadir pelo irmão – por amor de Jesus –, deixa-te “consumir” pelo irmão – como outra Eucaristia –; coloca-te todo a seu serviço, que é serviço de Deus, e o irmão virá a ti e te amará. E no amor fraterno reside o cumprimento de cada desejo de Deus que é mandamento: “Dou-vos um mandamento novo: que vos ameis uns aos outros” (Jo 13,34).


O amor é um Fogo que compenetra os corações numa perfeita fusão.

Então, encontrarás em ti não mais a ti mesmo, não mais o irmão; encontrarás o Amor, que é Deus vivente em ti.

E o Amor sairá para amar outros irmãos porque, tendo o olhar simplificado, encontrará a si mesmo neles e todos serão um.

E ao teu redor crescerá a Comunidade: como os doze, os setenta e dois, milhares… como ao redor de Jesus.

É o Evangelho que, fascinando – porque Luz em amor – arrebata e arrasta.

No final, quem sabe, morrerás numa cruz, para não seres maior do que o Mestre, mas morrerás por quem te crucifica, e assim o amor terá a última vitória. Mas a sua seiva, difusa nos corações, não morrerá.

Frutificará, fecundando, alegria e paz, e Paraíso aberto.

E a glória de Deus crescerá.

Mas é preciso que tu sejas, aqui na terra, o Amor perfeito.

Chiara Lubich.

Palavra de Vida - agosto de 2008

Para este mês, o comentário da Palavra de Vida foi extraído de uma clássica meditação de Chiara Lubich, “Se teu olho é simples”, que ajuda a compreender e a colocar em prática essa passagem da Escritura segundo a Espiritualidade da Unidade. (cf. Ideal e luz, São Paulo : Brasiliense/Cidade Nova, 2003, p. 122; Atração do tempo moderno, São Paulo : Cidade Nova, 1983, p. 156)



domingo, 13 de julho de 2008

É Amor!

«Um dia, estava S. Agostinho diante do Sacrário a desabafar o coração:

Meu Jesus, amo-Vos, amo-Vos com todas as minhas forças, e porque Vos amo, arrependo-me de haver-Vos ofendido tantas vezes na minha vida passada.

E ouviu uma voz que lhe disse:

– Agostinho, quanto Me amas?

– Senhor, se o sangue das minhas veias fosse azeite, eu quereria que esse azeite se consumisse por vosso amor, como se consome o azeite desta lâmpada, que arde diante do vosso tabernáculo.

– Agostinho, nada mais? – repetiu a voz.

– Senhor, amo-Vos tanto, tanto, que se os meus ossos fossem velas, queria que se derretessem de amor, como se derretem estas velas que alumiam o vosso altar.

– Agostinho, nada mais?

– Senhor, amo-Vos tanto, tanto, que se eu tivesse tantos corações como há de estrelas no céu, e gotas de água no oceano, e areias na praia, e átomos no espaço, com esses corações eu Vos quisera amar.

– Agostinho, nada mais?

Então olhando através das suas lágrimas a porta do sacrário, encontrou a resposta digna da sua inteligência extraordinária e da sua santidade:

– Senhor, como quereis que eu Vos ame mais, se o coração humano já não pode amar mais? Mas Senhor, eu amo-Vos tanto, tanto, que, se Vós fosseis Agostinho e eu fosse Deus, eu deixaria de ser Deus para que Vós o fosseis, e contentar-me-ia com ser o pobre Agostinho!

– Agostinho, isso é o Amor! – foi a resposta divina.»

Fonte: Blogue: "A Capela"

sexta-feira, 4 de julho de 2008

Regra de ouro

“Tudo, portanto, quanto desejais que os outros vos façam, fazei-o, vós também, a eles. Isto é a Lei e os Profetas.”
(Mt 7,12)

Você já sentiu alguma vez uma sede de infinito? Já sentiu alguma vez em seu coração o desejo ardente de abraçar a imensidão? Ou, então: já percebeu alguma vez em seu íntimo a insatisfação por aquilo que faz, pelo que você é?

Se assim for, ficará feliz por encontrar uma fórmula que lhe dê a plenitude com que tanto você sonha: algo que não deixe remorsos pelos dias que se vão semivazios...
Há uma frase no Evangelho que faz pensar e que, se entendida nem que seja um pouco, faz vibrar de alegria. Nela está condensado o que devemos fazer na vida. Ela resume cada lei que Deus imprimiu no fundo do coração de cada homem. Ouça esta frase:

“Tudo, portanto, quanto desejais que os outros vos façam, fazei-o, vós também, a eles. Isto é a Lei e os Profetas.”

Ela se chama “regra de ouro”.
Foi Cristo quem a trouxe, mas já era universalmente conhecida. O Antigo Testamento a trazia. Sêneca a conhecia, e o chinês Confúcio, no Oriente, a repetia. E outros ainda. Isso mostra o quanto ela importa a Deus: ele quer que todos os homens façam dela a norma de suas vidas.
É linda de ler e ecoa como um slogan. Ouça-a novamente:

“Tudo, portanto, quanto desejais que os outros vos façam, fazei-o, vós também, a eles. Isto é a Lei e os Profetas.”

Amemos assim cada próximo que encontramos no correr do dia. Imaginemos estar na sua situação e tratemo-lo como gostaríamos de ser tratados em seu lugar. A voz de Deus que mora dentro de nós haverá de nos sugerir a expressão de amor adequada a cada circunstância.

Ele está com fome? Estou com fome eu – pensemos. E demos a ele de comer.
Sofre injustiça? Sou eu que a sofro! Está nas trevas e na dúvida? Sou eu que estou. E lhe digamos palavras de conforto, e dividamos com ele suas angústias, e não sosseguemos enquanto ele não se sentir iluminado e aliviado. Nós quereríamos ser tratados assim.
É alguém com deficiência física? Quero amá-lo até quase sentir em meu corpo e em meu coração a sua deficiência, e o amor haverá de me sugerir o recurso certo para fazer que se sinta igual aos outros, aliás, com uma graça a mais, pois nós cristãos sabemos o valor do sofrimento.

E assim com todos, sem discriminação alguma entre simpático e antipático, entre jovem e ancião, entre amigo e inimigo, entre compatriota e estrangeiro, entre bonito e feio... O Evangelho quer realmente dizer todos.

Tenho a impressão de ouvir um murmúrio geral...
Compreendo... Talvez essas minhas palavras pareçam simples, mas quanta mudança elas exigem! Quão longe estão do nosso modo costumeiro de pensar e de agir!
Mas, coragem! Tentemos.

Um dia passado assim vale uma vida. E, à noite, não nos reconheceremos mais a nós mesmos. Uma alegria jamais sentida nos invadirá. Uma força se apoderará de nós. Deus estará conosco, porque está com aqueles que amam. Os dias se seguirão plenos.

Às vezes, pode ser que reduzamos a marcha, que sejamos tentados a desanimar, a largar tudo. E queiramos voltar à vida de antes… Mas não! Coragem! Deus nos dá a graça. Recomecemos sempre. Perseverando, veremos lentamente o mundo mudar à nossa volta.

Entenderemos que o Evangelho é portador da vida mais fascinante, acende a luz no mundo, dá sabor à nossa existência, tem em si o princípio da resolução de todos os problemas. E não teremos paz enquanto não comunicarmos a nossa extraordinária experiência a outros: aos amigos que nos podem entender, aos parentes, a quem quer que nos sintamos impelidos a transmiti-la. A esperança renascerá.

“Tudo, portanto, quanto desejais que os outros vos façam, fazei-o, vós também, a eles. Isto é a Lei e os Profetas.”

Chiara Lubich


terça-feira, 17 de junho de 2008

Permanecer no Amor

Palavra de Vida - junho de 2008. Texto de Chiara Lubich
“Quem observa os seus mandamentos permanece em Deus, e Deus permanece nele”. (1Jo 3,24a)

Quem ama gostaria de estar sempre com a pessoa amada. Esse também é o desejo de Deus, que é Amor. Criou-nos para que pudéssemos encontrá-lo e, sendo ele o único capaz de saciar o nosso coração, não teremos alegria plena enquanto não alcançarmos a íntima união com ele. Desceu do céu para estar conosco e para introduzir-nos na sua comunhão.


O apóstolo João, na sua carta, fala de “permanecer” um no outro, Deus em nós e nós em Deus, lembrando a exigência mais profunda manifestada por Jesus na sua última ceia. “Permanecei em mim e eu permanecerei em vós”, disse o Mestre, explicando com a alegoria da videira e dos seus ramos o quanto é forte e vital a ligação que nos une a ele (Jo 15,1-5).
Mas, como alcançar a união com Deus?
João não hesita. Afirma que basta observar os mandamentos:

“Quem observa os seus mandamentos permanece em Deus, e Deus permanece nele”.

São muitos os mandamentos que devemos observar para que essa unidade seja alcançada?
Não, porque Jesus os sintetizou num só preceito. João recorda, imediatamente antes de citar a Palavra de Vida escolhida para este mês: “Este é o seu mandamento: que creiamos no nome do seu Filho, Jesus Cristo, e nos amemos uns aos outros, de acordo com o mandamento que ele nos deu” (1Jo 3,23).

Crer em Jesus e amar-nos como ele nos amou: eis o único mandamento.
Se a existência humana encontra a sua realização na presença de Deus entre nós, então existe apenas um modo para sermos pessoas plenamente realizadas: amar! João está tão convicto dessa realidade que repete sempre no decorrer de toda a carta: “Quem permanece no amor, permanece em Deus, e Deus permanece nele” (1Jo 4,16b); “Se nos amamos uns aos outros, Deus permanece em nós…” (1Jo 4,12).

A esse respeito a tradição conta que, quando alguém fazia perguntas a João, já bem idoso, sobre os ensinamentos do Senhor, ele repetia sempre as palavras do mandamento novo. Se lhe perguntavam por que não dizia outra coisa, respondia: “Porque é o mandamento do Senhor! Se alguém o pratica, isso basta”.
Pode-se dizer o mesmo de cada Palavra de Vida: ela nos leva inevitavelmente a amar. Não pode ser de outra forma, porque Deus é Amor e cada Palavra sua contém o amor, exprime o amor e, se for vivida, nos transforma em amor.

“Quem observa os seus mandamentos permanece em Deus, e Deus permanece nele”.

A Palavra deste mês nos convida a acreditar em Jesus, a aderir com todo o nosso ser à sua Pessoa e ao seu ensinamento: crer que ele é o amor de Deus – como nos ensina ainda João nessa carta – e que por amor deu a vida por nós (1Jo 3,16). Faz-nos acreditar até mesmo quando ele parece estar longe, quando não o sentimos, quando chegam as dificuldades ou o sofrimento…
Encorajados por essa fé, saberemos viver seguindo o seu exemplo e, obedecendo ao seu mandamento, amar-nos como ele nos amou.

Amar inclusive quando o outro não parece mais merecer o amor, mesmo quando temos a impressão de que o nosso amor seja inadequado, inútil, não correspondido. Agindo assim, reavivaremos os relacionamentos entre nós, que se tornarão cada vez mais sinceros, cada vez mais profundos, e a nossa unidade atrairá a permanência de Deus entre nós.

“Quem observa os seus mandamentos permanece em Deus, e Deus permanece nele”.

“Meu marido e eu vivíamos apaixonados. Era fácil o relacionamento entre nós nos primeiros anos de casados. Nesse último período, porém, ele anda muito cansado e estressado. No Japão, o trabalho pesa como chumbo nas costas de um homem.

Uma noite, voltando do trabalho, ele sentou-se à mesa para jantar. Aproximei-me para sentar ao seu lado, mas aos gritos mandou que eu saísse: “Você não tem o direito de comer, porque não trabalha!” Passei a noite chorando e prometendo a mim mesma separar-me dele, ir embora. No dia seguinte mil pensamentos me torturavam o tempo todo: “Casei-me com a pessoa errada, não consigo mais viver com ele”.

À tarde falei com as amigas com as quais partilho a minha experiência cristã. Escutaram-me com amor e na comunhão com elas encontrei a força e a coragem necessárias para não desanimar… Então consegui preparar mais uma vez o jantar para o meu marido. Porém, quanto mais se aproximava a hora da sua chegada, mais aumentava o meu receio: como será que ele vai reagir hoje? E sentia como se uma voz interior me dissesse: “Acolha essa dor. Fique firme. Continue amando”. Nesse momento ele abriu a porta. Trazia uma torta para mim. E disse: “Perdoe-me por tudo o que aconteceu ontem.”

Chiara Lubich


segunda-feira, 9 de junho de 2008



Sim, infelizmente, ainda o Darfur...








E, agora, perguntam-me vocês, por que razão coloquei no meu blog o link para o Portal do Governo?

Por que o Darfur ainda está a sofrer. O genocídio continua. As mortes, as violações, a tortura, a fome, a sede ainda são uma constante naquela zona do Sudão. O site Por Darfur apela-nos a escrever uma carta, neste link do Portal do Governo, para que estes nossos irmãos não sejam esquecidos. Já o fizémos uma vez. Mas, pelos vistos, temos de repetir. E vamos repetir até ser necessário. Podes também assinar a petição para os representantes da ONU.

Se fosse um filho nosso? Também não continuávamos a lutar? Se fosse o nosso país? E, claro, não esqueçamos que somos cristãos. Amamos Cristo e queremos seguir a Sua Palavra de Amor. Então, estamos à espera do quê para escrevermos a carta e divulgar esta acção junto dos que conhecemos?

E, claro, rezem muito. Ofereçam comunhões e missas por este povo irmão. O Darfur agradece. Jesus e Maria agradecem-vos.

domingo, 25 de maio de 2008

Dá que pensar...


"O que é uma estrada que não conduz a lado nenhum?


A vida sem Deus"


Raoul Follereau

sexta-feira, 2 de maio de 2008

Novena ao Espírito Santo Dia 11 de Maio é o dia do Pentecostes, a descida do Espírito Santo. "Se me tendes amor, cumprireis os meus mandamentos, e Eu apelarei ao Pai e Ele vos dará o Espírito para que esteja sempre convosco, o Espírito da verdade, que o mundo não pode conhecer porque não o vê nem o conhece; vós é que o conheceis, porque permanece junto de vós, e está em vós.” (Jo 14,15-17)

1- Vinde, Espírito de Sabedoria! Instruí o meu coração para que eu saiba estimar e amar os bens celestes e antepô-lo a todos os bens da terra. (Glória ao Pai...)


2- Vinde, Espírito de Inteligência! Iluminai a minha mente para que entenda e abrace todos os mistérios e mereça alcançar um pleno conhecimento Vosso, do Pai e do Filho. (Glória ao Pai...)


3- Vinde, Espírito de Conselho! Assisti-me em todos os assuntos desta vida instável, tornai-me dócil às Vossas inspirações e guiai-me sempre pelo direito caminho dos divinos mandamentos. (Glória ao Pai...)


4- Vinde, Espírito de Fortaleza! Fortalecei o meu coração em todas as perturbações e adversidades e dai à minha alma o vigor necessário para resistir a todos os meus inimigos. (Glória ao Pai...)


5- Vinde, Espírito de Ciência! Fazei-me ver a vaidade de todos os bens caducos deste mundo, para que não use deles senão para Vossa maior glória e salvação da minha alma. (Glória ao Pai...)


6- Vinde, Espírito de Piedade! Vinde morar no meu coração e inclinai-o para a verdadeira piedade e santo amor de Deus. (Glória ao Pai...)


7- Vinde, Espírito de Temor de Deus! Repassai a minha carne com o Vosso santo temor, de modo que tenha sempre Deus presente e evite tudo o que possa desagradar aos olhos de Sua divina majestade. (Glória ao Pai...)


Divino Espírito Santo, eu vos ofereço todas as preces da santíssima Virgem e dos apóstolos reunidos no cenáculo, e a estas uno todas as minhas orações, suplicando-Vos que Vos apresseis em vir renovar a face da terra.


- Enviai o Vosso Espírito e tudo será criado.
- E renovareis a face da terra.


Oremos: Ó Deus, que instruístes os corações dos fiéis com a luz do Espírito Santo, dai-nos pelo mesmo Espírito o conhecimento e o amor da justiça e que gozemos sempre da Sua consolação. Amém.


(Rezar três Ave-Marias a Nossa Senhora de Pentecostes com a invocação: "Rainha dos Apóstolos, rogai por nós!")


Fonte: http://www.cancaonova.com/portal/canais/especial/pentecostes/rez_novena.php

quinta-feira, 17 de abril de 2008

“E o fruto da justiça será a paz"!


“E o fruto da justiça será a paz! A prática da justiça resultará em tranqüilidade e segurança duradouras.” (Is 32,17)


“Até que sobre nós se derrame o espírito que vem do alto. Aí, então, o que era deserto virá a ser um bosque e o que era um bosque será uma floresta.” Assim começa o trecho que contém a Palavra de Vida deste mês. Na segunda metade do século VIII antes de Cristo, o profeta Isaías anuncia um futuro de esperança para a humanidade, de certo modo uma nova criação, um novo “bosque” ou “jardim”, onde moram o direito e a justiça, capazes de gerar paz e segurança.


Essa nova era de paz (shalom) será obra do Espírito divino, força vital capaz de renovar a criação; e, ao mesmo tempo, será fruto do respeito pela Aliança, pelo pacto entre Deus e o seu povo e entre os componentes do próprio povo, uma vez que a comunhão com Deus e a comunidade dos homens são realidades inseparáveis.

“E o fruto da justiça será a paz! A prática da justiça resultará em tranqüilidade e segurança duradouras.” (Is 32,17)

As palavras de Isaías recordam a necessidade de um esforço responsável e sério em respeitar as normas comuns da convivência civil, que impedem o individualismo egoísta e o arbítrio cego, favorecem a coexistência harmoniosa e o trabalho a serviço do bem comum.
Mas, será possível viver segundo a justiça e praticar o direito? Sim, com a condição de que se reconheçam todas as outras pessoas como irmãos e irmãs e se veja a humanidade como uma família, no espírito da fraternidade universal.

E como é possível enxergá-la assim, sem a presença de um Pai para todos? Ele, por assim dizer, já gravou a fraternidade universal no DNA de cada pessoa. Com efeito, a primeira vontade de um pai é que os filhos se tratem como irmãos e irmãs, que se queiram bem, que se amem.
Por isso o “Filho” por excelência, o Irmão de cada homem, veio e nos deixou como norma da vida social o amor mútuo. E o respeito pelas regras da convivência e o cumprimento do próprio dever são expressões do amor.

O amor é a norma suprema de toda ação; norma essa que promove a verdadeira justiça e traz a paz. As nações precisam de leis cada vez mais correspondentes às necessidades da vida social e internacional, mas sobretudo precisam de homens e mulheres que no seu íntimo saibam “ordenar” a caridade. Essa “ordem” é justiça, e só nessa ordem as leis têm valor.

“E o fruto da justiça será a paz! A prática da justiça resultará em tranqüilidade e segurança duradouras.”

Como viveremos, então, a Palavra de Vida durante este mês?
Empenhando-nos ainda mais nos deveres profissionais, na ética, na honestidade, na legalidade.
Reconhecendo os outros como pessoas da mesma família que esperam de nós atenção, respeito, proximidade solidária.

Se você colocar a caridade mútua e contínua (que precede todas as coisas) na base da sua vida, nos seus relacionamentos com o próximo, como a mais completa expressão do seu amor para com Deus, então a sua justiça será realmente agradável a Deus.

“E o fruto da justiça será a paz! A prática da justiça resultará em tranqüilidade e segurança duradouras.”

No sul da Itália, um guarda civil com sua família decidiu morar, por opção de solidariedade para com as pessoas menos privilegiadas da cidade, num dos bairros novos que estavam surgindo: ruas sem asfalto, ausência de iluminação pública, de rede de água e de esgoto; serviços de assistência social e transporte público, nem pensar.

“Procuramos criar com todas as famílias e cada habitante do bairro uma relação de conhecimento e de diálogo”, diz ele, “tentando sanar a fratura existente entre os cidadãos e a administração pública. Aos poucos, os cerca de 3.000 habitantes do bairro se tornaram agentes ativos no relacionamento com as instituições públicas, por meio de um comitê criado com esse objetivo.

Chegaram a conseguir da administração regional a aprovação de uma verba significativa para a recuperação do bairro, que agora é um bairro-modelo, tendo criado até atividades de formação para representantes de todos os comitês de bairro da cidade”.

Chiara Lubich